A Volkswagen está prestes a anunciar um novo programa de investimentos no Brasil. Desta vez, além da renovação de produtos, a montadora alemã precisa elevar a capacidade de produção para acompanhar o crescimento do mercado brasileiro que, segundo seus cálculos, alcançará 40% até 2014.
O novo plano de investimentos será anunciado antes do fim do ano, segundo o presidente da empresa, Thomas Schmall. A quantia necessária já está definida, mas não pode ser divulgada porque depende da autorização da matriz, na Alemanha.
O último plano de investimentos da Volks no Brasil somou R$ 3,2 bilhões. O cronograma inicial previa utilizar esses recursos entre 2007 e 2011. Mas a necessidade de acelerar investimentos nos últimos meses levou, agora, à antecipação de um novo programa.
Um dos principais símbolos da indústria automobilística no Brasil desde a instalação do setor ao país, na década de 50, a Volkswagen segue um ritmo que reflete não só a expansão do mercado de automóveis como também o crescimento econômico do país.
Em 1990, a Volks era dona de 40% do mercado brasileiro de veículos de passeio e comerciais leves. Com a chegada de novas montadoras - o número de marcas de carros desde então pulou de 11 para 30 - , sua fatia diminuiu para menos de 25%. Mesmo assim, as vendas anuais da empresa no período saltaram de 257 mil para 586 mil em 2008. Ela é dona hoje de quase um quarto de um mercado quase cinco vezes maior. Isso é mais do que a General Motors tem nos Estados Unidos (cerca de 18% do mercado interno).
Em 1990 foram vendidos no Brasil 661 mil carros e comerciais leves. Este ano o volume total deverá ficar próximo de 3 milhões. A direção da Volks prevê que o mercado interno chegará a 4 milhões em 2014. A empresa decidiu preparar-se para ter um quarto desse total.
Mas os alemães não estão sozinhos nas apostas de crescimento do mercado brasileiro. O anuncio de mais investimentos na Volks, que tem no Brasil três fábricas de carros e uma de motores, se junta a planos de outras montadoras que já somavam cerca de US$ 12 bilhões somente até 2012. Entre os anúncios recentes, está o plano da GM de aplicar R$ 2 bilhões na fábrica do Rio Grande do Sul.
A direção da Volks também não despreza, por exemplo, a ambição que está por trás da compra de um terreno em Sorocaba pela Toyota, maior fabricante de automóveis do mundo. Embora a montadora japonesa não tenha detalhado números, sabe-se que além dela outros asiáticos, como a coreana Hyundai, preparam-se para entrar com mais força no mercado brasileiro.
A Volks também não conseguiu ainda recuperar a liderança de mercado, que perdeu para a Fiat há oito anos. Hoje, os alemães vendem mais automóveis do que os italianos. Mas o fraco da marca alemã são os comerciais leves. É essa categoria que vem garantido o primeiro lugar à Fiat.
Para tentar tirar a diferença, a Volks ataca agora justamente nesse segmento. Acaba de lançar uma nova versão da picape Saveiro e em breve vai estrear no mercado das picapes médias com um novo modelo, chamado Amarok, que será produzido na fábrica da Argentina.
A nova Saveiro faz parte do plano de modernização de produtos, que começou em meados de 2008, com o lançamento da nova geração do Gol, um carro que entra no 23º ano consecutivo na liderança, com mais de 12% das vendas de automóveis do país, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos (Fenabrave).
Parte dos resultados se deve à antiga fidelidade da parcela dos brasileiros que aposta na facilidade de manutenção e melhor valor de revenda de veículos da empresa veterana. "Para ter sucesso no Brasil é preciso ter uma boa rede de concessionárias", afirma o vice-presidente de Vendas e Marketing, Flavio Padovan, referindo-se aos 600 pontos de venda da marca.
Mas isso não basta quando a concorrência entra em ação para valer. Não é a tradição que faz com que a Volkswagen viva hoje um dos seus melhores momentos no Brasil. Há um conjunto de condições que levaram a companhia a um cenário positivo.
A renovação dos veículos é um dos quatro pilares. Somente em 2009 serão 16 produtos renovados. A segunda base de sustentação é o fim dos conflitos com os sindicatos, principalmente na base dos metalúrgicos do ABC, que tiveram o seu auge entre 2003 e 2006. A paz com os sindicalistas veio no acordo por meio do qual a Volks cumpriu a promessa de investir nas fábricas onde se aceitassem regras trabalhistas mais flexíveis. A empresa formou o terceiro pilar ao criar programas de relacionamento com fornecedores.
O quarto pilar desse conjunto de condições favoráveis é a nova gestão. Até 2006, a fase de desgastes, por conta principalmente dos embates com os sindicatos, levou a companhia a trocar o comando no Brasil com mais frequência que o normal nessa indústria.
É certo que quando o atual presidente, Thomas Schmall, assumiu, em 2007, o plano de reestruturação do quadro de empregados já estava praticamente concluído. Mas Schmall montou, desde então, uma equipe de comando afinada.
O trabalho em equipe parece ser uma ideia fixa. Até para a entrevista ao Valor , o executivo não abriu mão da presença de três dos cinco vice-presidentes. Munidos de papéis com informações de cada área, três alemães - Josef-Fidelis Senn, de Recursos Humanos; e Carsten Isensee, de Finanças, além do próprio Schmall - e o brasileiro Flavio Padovan, de Vendas e Marketing, narraram a estratégia da companhia.
"O país inteiro mudou", diz Schmall. Ele conta que quando assumiu o cargo encontrou aqui "um diamante que precisava ser lapidado". Avançar, para ele, nessa fase, é uma questão de competência para acompanhar um crescimento, agora sustentado, da própria economia brasileira.
Fonte: Valor Econômico